Formações Teologia do Corpo

Série Teologia do Corpo #40: A virtude da continência

Chegamos ao fim desta sequência de reflexões acerca das catequeses de São João Paulo II sobre o amor humano. Este conjunto de catequeses, definido por ele mesmo como ‘Teologia do Corpo’, promove uma profunda reflexão sobre a sexualidade do homem e da mulher, o sentido da vida e tantas outras questões fundamentais, e as faz não só com a autoridade de Papa da Igreja (e hoje santo), mas também como grande filósofo e teólogo que é.

Para bem concluir estas reflexões se faz necessário destacar os meios fundamentais apontados por ele, para que o casal cristão possa viver o amor conjugal em sua plenitude. O Papa propõe, então, uma análise da virtude da continência a partir das reflexões expressas na Humanae Vitae: “Pode-se dizer que a Encíclica Humanae Vitae constitui exatamente o desenvolvimento desta verdade bíblica sobre a espiritualidade cristã conjugal e familiar. Todavia, para o tornar ainda mais evidente é necessária uma análise mais profunda da virtude da continência e do seu particular significado para a verdade da mútua ‘linguagem do corpo’ na convivência conjugal e (indiretamente) na ampla esfera das recíprocas relações entre o homem e a mulher.” (TdC 127). Aqui ele ressalta novamente o papel da vida virtuosa no exercício da relação conjugal ao se referir novamente ao ensinamento de São Paulo aos Efésios (capítulo 5, versículos 21 ao 33), no qual fez uma longa reflexão nas catequeses dedicadas ao sacramento do matrimônio.

Sobre a continência, São João Paulo II assim define: “A ‘continência’, que é parte da virtude mais geral da temperança, consiste na habilidade de dominar, controlar e orientar os impulsos sexuais (concupiscência da carne) e suas consequências na subjetividade psicossomática dos seres humanos.” (TdC 128). Deste modo, a virtude da continência opera como força (virtus) capar de ordenar as paixões da carne e seus impulsos, pois se deixados ‘soltos’ conduzem ao desequilíbrio. A virtude da temperança e da continência, assim como acontece com todas as outras virtudes, conduzem a moderação, ao termo médio, enquanto os vícios (que se opõe as virtudes) conduzem a desordem. Assim, a virtude da continência na vida dos casais não pretende reprimir o desejo sexual mas ordena-lo e canalizá-lo, de modo que o homem e a mulher tornam-se senhores de si mesmos e são capazes de ordenar toda a sua paixão (instinto natural) para o amor e a doação recíproca.

A virtude da continência deve ser associada a realidade da castidade conjugal, que por muitas vezes é mal compreendida. Muitos pensam que a castidade é uma virtude própria dos solteiros, dos casais de namorados e noivos, mas que depois de casarem podem viver sua vida sexual sem moderação, de qualquer jeito. Este talvez seja um dos grandes desafios, tanto da Humanae Vitae quanto da Teologia do Corpo, pois a intimidade conjugal é um território difícil de ser tocado. Muitos dizem que ‘na relação entre o marido e a mulher ninguém mete a colher’, ou ainda, que ‘entre quatro paredes vale tudo’, mas estas afirmações, muitas vezes ditas de forma pejorativa e sarcástica, não condiz com a verdade apresentada pela moral católica. Por isso, com muita coragem, São João Paulo II diz: “A tarefa da castidade conjugal e, ainda mais precisamente, a da continência, não consiste só em proteger a importância e a dignidade do ato conjugal em relação ao seu significado potencialmente procriador, mas também em salvaguardar a importância e a dignidade próprias do ato conjugal, na medida em que ele expressa a união interpessoal, desvelando a consciência e a experiência dos cônjuges todas as outras possíveis ‘manifestações de afeto’, que exprimam sua união profunda.” (TdC 128). São João Paulo II aqui não pretende somente reforçar a necessidade de que os casais vivam a castidade e a continência em seu matrimônio, mas também de justificar finalidade: o bem dos cônjuges e a transmissão da vida.

Contudo, é possível que muitas pessoas questionem este posicionamento dos santos Papas e da moral católica dizendo: será que isso é possível? Muitos, até de forma maldosa podem julgar estes posicionamentos por serem direcionados por celibatários e não por pessoas que vivem a realidade do matrimônio e encaram diariamente seus desafios, porém isso não é verdade. A Igreja sempre consultou os casais católicos ao fazer tais direcionamentos, além disso, são os padres os que atendem as confissões e acompanham a maioria dos casais que vivem seus conflitos. A Igreja tem propriedade para falar da moral sexual e do matrimônio, pois conhece seus dramas, e justamente por isso que precisa direcionar os casais que desejam buscar a santidade em seu casamento. Esta é também a missão da Igreja.

Por fim, São Joao Paulo II explica que a vivência da virtude da continência, não se trata de um problema em si, mas sim da solução: “Pensa-se, frequentemente, que a continência provoca tensões interiores, das quais o homem deve libertar-se. À luz das análises feitas, a continência, entendida integralmente, é, antes, o único caminho para libertar o homem de tais tensões. A continência significa nada mais que o esforço espiritual direcionado a expressar a ‘linguagem do corpo’ não só na verdade, mas também na autêntica riqueza das ‘manifestações de afeto’.” (TdC 129). Deste modo, a continência torna-se fundamento do equilíbrio sexual que tornam o homem e a mulher ‘senhores de si mesmos’ e capazes de viverem o amor conjugal de forma plena. Só assim, o prazer não será apenas uma manifestação de um resultado fisiológico que dura pouco tempo, mas será como uma centelha ardente, centelhas de fogo que não serão apagadas pelas torrentes expressas nos desafios próprios do matrimônio, mas conduzirá o casal a harmonia conjugal, ao verdadeiro amor, e, se caminharem de forma pura e santa neste mundo, poderão juntos gozar da felicidade eterna no céu.

“Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina. As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios o poderiam submergir.

(Cântico dos Cânticos 8, 6-7)

Por Valdo Júnior | Missão Maria de Nazaré

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