Formações Teologia do Corpo

Série Teologia do Corpo #14: O significado da vergonha

Após o pecado original, cometido por Adão e Eva, nossos primeiros pais passam por uma espécie de transformação da consciência de si. Se antes do pecado eles eram capazes de estarem nus e não se envergonharem (cf. Gn 2, 25), a partir do pecado eles se escondem em folhas para cobrirem seus corpos: “Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira.” (Gn 3, 7). São João Paulo II, se referindo a este versículo, explica que: “Em tudo isso, a ‘nudez’ não tem apenas significado literal, não se refere só ao corpo, não é origem de uma vergonha referida só ao corpo. Na realidade, o que manifesta através da ‘nudez’ é o homem destituído da participação do Dom.” (TdC 27).

 Ao lermos estas páginas da Sagrada Escritura que falam do pecado original, é comum que nossa atenção se prenda ao simples fato de que o pecado torna impuro nosso olhar e, portanto, já não era possível que Adão e Eva permanecessem com seus corpos nus. Porém, São João Paulo II conduz nossa atenção para o coração do ser humano, ou seja, para o efeito do pecado em seu interior: “A vergonha, cuja causa se encontra na própria humanidade, é ao mesmo tempo imanente e relativa: manifesta-se na dimensão da interioridade humana e ao mesmo tempo se refere ao ‘outro’.” (TdC 28). Deste modo, o Papa afirma que com o pecado o homem e a mulher perdem a maravilhosa graça de si enxergarem em quando um Dom, e de alguma forma, passam a ter medo do olhar do outro, que agora é tomado pela cobiça.

Sobre este medo, São João Paulo II explica que: “A vergonha, que sem dúvida se manifesta na ordem ‘sexual’, revela uma dificuldade específica em perceber a essencialidade humana do próprio corpo. ‘Fiquei com medo, porque estava nu’. Por meio destas palavras revela-se certa fratura constitutiva no interior da pessoa humana, uma ruptura da unidade espiritual e somática original do homem. Este se dá conta pela primeira vez que seu corpo cessou de beber da força do espírito, que o elevava ao nível da imagem de Deus. A sua vergonha original traz em si os sinais de uma específica humilhação comunicada pelo corpo.” (TdC 28).

A Teologia do Corpo aprofunda muito estes poucos versículos que tratam da queda do homem. São João Paulo II explica que a vergonha experimentada pelo primeiro homem surge com a concupiscência, assim como esta provém do pecado original: “O homem tem vergonha do corpo por causa da concupiscência. Mais exatamente, ele tem vergonha não tanto do corpo, e sim mais precisamente da concupiscência: tem vergonha do corpo guiado pela concupiscência.” (TdC 28). Ou seja, esta vergonha do corpo surge da nossa inclinação ao mal.

Portanto, as consequências do pecado original para o “homem histórico” são enormes. A vergonha instaurada em nosso ser destruiu, de algum modo, a comunicação recíproca que havia entre o homem e a mulher. Não era necessário estabelecer barreiras ou restrições para o olhar, pois este era puro e enxergava o outro não como uma via ou meio para o prazer e satisfação, mas como janela para se contemplar o Criador. Nas palavras de São João Paulo II: “É como se a sexualidade se tornasse ‘obstáculo’ na relação pessoal do homem com a mulher (…) A necessidade de se esconder ante o ‘outro’ mostra a fundamental falta de confiança, que já em si aponta para o colapso da relação original ‘de comunhão’. (TdC 29).

 Mergulhados na graça da redenção de Cristo, que lavou o nosso corpo com teu sangue, somos chamados a lutar contra esta inclinação má de deturpar nosso olhar e nossas intenções em relação ao outro. É preciso desenvolvermos as virtudes necessárias para ordenarmos nossos desejos, como o pudor, a modéstia e a castidade. Neste sentido, a própria vergonha pode colaborar neste processo, pois, de acordo com São João Paulo II, ela possui um duplo significado: “ela indica a ameaça ao valor (original do corpo e do homem), e ao mesmo tempo ela preserva interiormente este valor”. (TdC 29). Deste modo, “Se, por um lado, a vergonha revela o momento da concupiscência, ao mesmo tempo pode em primeira mão fornecer armas ou meios contra as consequências da concupiscência.” (TdC 31).

Por Valdo Júnior | Missão Maria de Nazaré

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