Formações Teologia do Corpo

Série Teologia do Corpo #24: Um novo Adão

Na Sagrada Escritura a figura de Adão é por muitas vezes remetida ao pecado original, ou seja, a desobediência do primeiro homem, que por meio desta rompeu com o vínculo harmonioso entre Deus e a humanidade. Essa referência não ocorre apenas no antigo testamento, mas também no Evangelho e nas cartas dos apóstolos. É, porém, São Paulo que faz a principal correlação entre Adão e Cristo, sendo o primeiro aquele que abriu as portas para escravidão do pecado e Cristo aquele que nos libertou: “Portanto, como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim por um único ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos.” (Rm 5, 18-19). São Paulo afirma que este ato de justiça que nos trouxe a libertação e a justificação foi a morte de Jesus na Cruz.

Diante deste fato, São João Paulo II ao falar do ‘homem escatológico’ e da ressurreição da carne, faz também referência a Adão e a Cristo: “Este ‘homem celestial’ – o homem da ressurreição, cujo protótipo é Cristo ressuscitado – não é tanto antítese e negação do ‘homem na terra’ (cujo protótipo é o ‘primeiro Adão’), mas sobretudo é a sua consumação e a sua confirmação. A humanidade do ‘primeiro Adão’, ‘homem da terra’, leva em si, diria, uma particular potencialidade (que é capacidade e prontidão) para acolher tudo o que se tornou o ‘segundo Adão’, o Homem celestial, ou seja, Cristo: o que Ele se tornou na sua ressurreição (…) Cada homem leva em si a imagem de Adão e cada um é também chamado a levar em si a imagem de Cristo, a imagem do Ressuscitado.” (TdC 71). Não significa que o Papa esteja discordando do que afirma São Paulo aos Romanos, mas aqui ele mostra o ‘homem celestial’ (cujo modelo é Cristo Jesus) como plenitude do ‘homem da terra’ (cujo modelo é Adão), ou seja, enquanto São Paulo mostra a consequência negativa do ato de Adão, São João Paulo II mostra Adão como ‘potência’ para se alcançar o ato, ou finalidade, de todo ser humano: Se tornar um novo Cristo (homem celestial).

Deste modo, o Papa demonstra que embora ‘cada homem leve em si a imagem de Adão’, somos capazes, pela graça de Deus, de caminharmos em direção a Cristo para alcançarmos a condição de plenitude para qual formos criados. São Paulo, desta vez aos Coríntios, diz o seguinte sobre isso: “Assim também é a ressurreição dos mortos. Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no despre­zo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal, também há um espiritual. Como está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente (Gn 2,7); o segundo Adão é espírito vivificante.” (1 Cor 15, 42-45). Nesta passagem São Paulo se aproxima mais da proposta de São João Paulo II de ver na figura de Adão algo além daquele que cometeu o primeiro pecado, mas também o que nos dá, com a natureza humana (‘corpo animal’), a condição para que surja em nós, por meio da ressurreição, a prevalência deste ‘espírito vivificante’ e, portanto, da glória do corpo. São Paulo continua, na mesma passagem: “Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o segundo veio do céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o homem celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzi­mos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do homem celestial.” (1 Cor 15, 46-49).

Em outras palavras, é o natural que dá sustento ao sobrenatural, ou seja, para que o ser humano se torne, por meio da ressurreição, o ‘homem celestial’ que nos fala São Paulo nesta passagem e São João Paulo II em sua Teologia do Corpo, é preciso que o ‘homem terreno’ seja redimido e fortalecido como potência para que alcance a sua plenitude. O Papa, ao fazer referência a passagem de São Paulo citada acima, ensina que: “Este tema tem as suas origens já nos primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Pode-se dizer que São Paulo (ver 1 Cor 15, 42-49) vê a realidade da futura ressurreição como certa restitutio in integrum, isto é, como a reintegração e, ao mesmo tempo, a obtenção da plenitude da humanidade”. (TdC 72).

Esta plenitude, porém, não se refere aquela da qual vivida por Adão e Eva no paraíso, mas algo ainda mais significativo. A ressurreição não será apenas uma restituição da condição que o pecado nos tirou, mas sim algo totalmente novo e superior, como nos ensina São João Paulo II: “Não é só restituição, porque em tal caso a ressurreição seria, em certo sentido, um retorno àquele estado da alma antes do pecado, fora do conhecimento do bem e do mal (ver Gen 1-2). Mas esse retorno não corresponde à lógica interna de toda a economia da salvação, ao mais profundo significado do mistério da redenção. A restituio in integrum, ligada à ressurreição e à realidade do ‘outro ‘mundo’, só pode ser a entrada em uma nova plenitude.” (TdC 72).

Por Valdo Júnior | Missão Maria de Nazaré

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